A Produção de Carvão Vegetal no estado do Mato Grosso do Sul:
Um estudo de sua dinâmica socioeconômica e ambiental

A publicação do livro Meio Ambiente e Trabalho no Mundo do Eucalipto, por Cláudio Guerra,em 1995, teve uma boa repercussão nos veículos de comunicação, no meio empresarial e acadêmico e também nos movimentos sociais no país. Por esta razão, o autor foi convidado a participar de fóruns e seminários em várias instituições e universidades, em diferentes partes do Brasil. Em 1996, o UNICEF o convidou para desenvolver uma pesquisa A Produção de Carvão Vegetal no estado do Mato Grosso do Sul: um estudo de sua dinâmica socioeconômica e ambiental, tendo em vista o cenário difícil ali existente: a atividade econômica lucrativa burlava a legislação trabalhista, tributária e ambiental e alimentava uma situação social sub-humana de milhares de famílias de trabalhadores carvoeiros, incluídas suas crianças.


Crianças carvoeiras (foto: Marcos Prado)

 

SAIBA MAIS:
A PESQUISA A PRODUÇÃO DE CARVÃO VEGETAL NO ESTADO DO MATO GROSSO DO SUL:
FOTOS
DESDOBRAMENTOS DA PESQUISA
ARTIGO :  “CRIANÇAS CARVOEIRAS: CORPOS E MENTES MARCADOS”
as
(por Cláudio Guerra e Amauri Ferreira, 1999)

 

A pesquisa A Produção de Carvão Vegetal no estado do Mato Grosso do Sul:

Em meados de 1996, a televisão BBC, de Londres, divulgou uma matéria bombástica sobre o trabalho infantil nas carvoarias no Mato Grosso do Sul (MS). O governo estadual, muito pressionado pelo Ministério Público Federal, pela mídia e por organismos nacionais e internacionais de direitos humanos, foi obrigado a iniciar um Programa de Ações Integradas (PAI) para a erradicação do trabalho infantil intolerável.

O Programa PAI contava com a participação de vários órgãos estaduais, alguns empresários do carvão e entidades da sociedade civil, com forte presença dos movimentos sociais da Igreja Católica. Entre eles estava o Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil, com sede em Brasília. Outras instituições participavam como colaboradoras. Este era o caso da Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), de Campo Grande e do UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância), que tinha um escritório regional na capital sul matogrossense.

O UNICEF assumiu o compromisso de elaborar um diagnóstico da realidade regional e para isto contratou uma pesquisa coordenada por Cláudio Guerra que tinha como objetivos conhecer melhor e descrever o cenário geral onde acontecia o trabalho infantil intolerável, nos seus aspectos econômicos, sociais, políticos, culturais e ambientais e também como funcionava a cadeia produtiva do carvão vegetal e seus vários elos.

A pesquisa interdisciplinar do UNICEF, intitulada A Produção de Carvão Vegetal no Estado do Mato Grosso do Sul: um estudo de sua dinâmica socioeconômica e ambiental, realizou um amplo levantamento de dados nos escritórios do IBAMA, em Campo Grande, e do Instituto Estadual de Florestas (IEF), em Belo Horizonte, além de dezenas de visitas às carvoarias nos municípios de Ribas do Rio Pardo, Águas Claras e Três Lagoas. A equipe técnica era formada por profissionais da área da engenharia ambiental, geografia, medicina do trabalho e dois estagiários de direito. O estudo  mostrou que grande parte do contingente dos trabalhadores no Mato Grosso do Sul vinha do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, na ilusão de conseguir um trabalho duro, mas com bom salário. Na realidade, as condições de vida e trabalho eram sub-humanas e os donos das carvoarias e seus vários intermediários, chamados de “gatos”, sistematicamente e rotineiramente burlavam a legislação ambiental, trabalhista e tributária.

O trabalho mapeou também a rota do carvão que era transportado de caminhão do interior do Mato Grosso do Sul para o pólo siderúrgico de Divinópolis e Sete Lagoas, muitas vezes, de forma clandestina. Para isto foi realizada uma pesquisa com os caminhoneiros, naquela rota, nas barreiras da Polícia Rodoviária Federal, em Minas Gerais e no Mato Grosso do Sul. Uma das conclusões foi de que o custo da mão de obra semi-escrava era tão barato que valia a pena produzir o carvão no Mato Grosso do Sul e vendê-lo em Minas Gerais.

 

FOTOS


Carvoaria típica da região leste do Mato Grosso do Sul (MS)


Criança trabalhando em carvoaria, na região de Ribas do Rio Pardo (MS)


Escola rural, próxima das carvoarias

 
Criança flagrada fugindo pelo mato na chegada dos
pesquisadores do UNICEF à carvoaria


Placa do dono da carvoaria advertindo seus trabalhadores

 

Desdobramentos da pesquisa

No final de 1996, Cláudio Guerra apresentou os resultados da pesquisa A Produção de Carvão Vegetal no estado do Mato Grosso do Sul: um estudo de sua dinâmica socioeconômica e ambiental, num Seminário na Organização Internacional do Trabalho (OIT), em Brasília. Este trabalho, que foi publicado pelo UNICEF, apresentou uma série de recomendações para solucionar os problemas no médio e longo prazo. Uma delas era a necessidade premente dos carvoeiros se organizarem em sindicatos e associações para deixarem a situação absolutamente sofrível e inaceitável de mão de obra semi-escrava.

O escritório regional do UNICEF no Mato Grosso do Sul foi coordenado com muita competência pela professora Eloisa Castro Berro, da Universidade Católica Dom Bosco (UCDB). A partir de 1998, ela articulou uma parceria entre o UNICEF e os cursos de serviço social e comunicação social desta universidade, o que viabilizou a publicação de vários materiais (folders, cartilhas, cartazes, boletins informativos, documentários) que foram utilizados pelo Programa de Ações Integradas (PAI), na fase de descentralização e mobilização das comunidades no interior do Mato Grosso do Sul para discutir as soluções para o trabalho infantil intolerável. Este processo envolveu os municípios onde se concentravam as grandes áreas com plantios de eucaliptos e centenas de carvoarias: Ribas do Rio Pardo, Águas Claras e Três Lagoas e contou com uma grande cobertura dos veículos de comunicação, o que deu ao tema grande visibilidade e inserção no cotidiano da sociedade sul matogrossense.

No período 1998 a 1999, vários seminários foram promovidos pelo PAI, com o apoio do UNICEF, inclusive com a participação dos carvoeiros e suas famílias, nestes municípios. Também ocorreram outros eventos em Campo Grande, no Campus da UCDB e na Diocese da Igreja Católica, como seminários e cursos de treinamento e capacitação de agentes sociais que iriam trabalhar nos 3 municípios envolvidos pela pesquisa(mencionados acima). O consultor ambiental Cláudio Guerra teve uma participação ativa em diversos eventos como palestrante e debatedor, nos três municípios envolvidos e em Campo Grande.

  


Folder produzido pela parceria UCBD-UNICEF

Entrevista concedida por Cláudio Guerra a  jornal local (agosto, 1999) em ocasião de seu retorno a Mato Grosso do Sul para participar de evento relacionado à questão da produção de carvão vegetal.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

Artigo

“Crianças carvoeiras: corpos e mentes marcados”
(por Cláudio Guerra* e Amauri Ferreira**)

Publicado no jornal Estado de Minas em 19/03/99 e utilizado na prova de português do vestibular da Faculdade de Direito de Itaúna -1999

Sofrer é compreender. A tarefa do sofrimento para os gregos implicava na perspectiva trágica, o reconhecimento dos homens de terem ultrapassado a medida pela falta de prudência com os imortais. No entanto, para os que reconhecem a injustiça, a violência, a exploração da força de trabalho, compreender é sofrer. A memória  do trabalho inscrita nos corpos de crianças e adolescentes no  Brasil evidencia a falta de compromisso  e de respeito dos governantes para com a  declaração dos direitos humanos que recentemente comemorou seus  50 anos. Nesse palco  de exploração humana  a cortina é de fumaça e nas chagas do corpo social  presenciamos  uma dor que se tornou estrutural : o trabalho infantil degradante.

No Estado de Minas Gerais se concentra o maior pólo siderúrgico a carvão vegetal do mundo. Um faturamento anual na ordem de 4 bilhões de dólares, segundo os dados da ABRACAVE. No entanto, na região do Cerrado mineiro, grande produtora de carvão vegetal, encontramos níveis elevados de exploração do trabalho infantil, reunindo as piores condições de vida e trabalho que se tem neste setor. No período de 1977-1988, esta região se tornou uma “grande fornalha”: ela foi responsável por 80% de todo o carvão produzido no estado. Como consequência, restam hoje apenas 15% da cobertura original do Cerrado em Minas (IEF,1994).

As crianças e adolescentes que vivem nas milhares de carvoarias espalhadas pela imensidão do Cerrado, especialmente naquelas localizadas no Vale do Jequitinhonha, se enquadram naquilo que o UNICEF chama de “circunstâncias especialmente difíceis”. Suas condições de moradia, higiene, nutrição, vestuário são precaríssimas; os serviços de saúde, educação, transporte, simplesmente não existem nas carvoarias, já que elas estão localizadas em áreas longínquas no meio rural. Sua carência material é absoluta : falta roupa, sapato, comida, brinquedo, lazer, alegrias, festas ou qualquer forma de celebração da vida. O isolamento social e o envolvimento precoce no trabalho com os pais afetam negativamente o seu desenvolvimento físico e psico-social.

Seu meio ambiente físico é caracterizado pela presença simultânea de inúmeros agentes agressivos à saúde tais como o excesso de radiação solar, chuva, calor, fogo, poeiras, fumaças, gases, esforço físico excessivo etc. Este cenário só contribui para atrasar seu  desenvolvimento enquanto  pessoa e trabalhador. O trabalho ( ou ajuda ) das crianças e adolescentes nas carvoarias apresenta duas características que o torna inaceitável : eles são submetidos a uma situação diária de riscos iminentes à sua saúde, além de evidente situação de exploração social.

Os pequenos carvoeiros, que o poeta Manoel Bandeira chamou de “espantalhos desamparados”,  vêm repetindo a saga dos pais : os meninos e meninas dos pés pretos,  do olhar triste,  da cara suja e do sorriso pequeno trabalham como se estivessem brincando..
Vozes silenciadas por traz de nuvens de fumaça desejam ser escutadas, pois uma lenta carbonização da cidadania vai se instaurando nos corpos de crianças, dos adolescentes e dos adultos que não estão sendo respeitados como seres humanos.

Esta memória de destruição fica inscrita nos corpos destes trabalhadores que ardem na beira dos   fornos e cujo suor  contribui para os lucros de diversas empresas ao longo da cadeia produtiva do carvão. Estes seres humanos, que vivem e trabalham como animais, se sacrificam diariamente vendendo até sua alma ao invés de  se adoçarem  no lúdico da vida, ou de penetrarem nas frestas do conhecimento para perceberem a situação de exploração que estão submetidas.

Por trás desta cortina de fumaça e de exploração os adolescentes e crianças exploradas denunciam na fala este tipo de violência: “a gente só trabalha e não diverte nada” (C.17 anos). A arte de brincar circunscreve-se no mundo do carvão, uma vez que o tempo os impulsiona à produção, engolindo a infância e degenerando  seus corpos.

“O serviço no carvão é pesado e não é bom para a saúde. O pior é a fumaça e o pó de carvão (W.15 anos). Corpos queimados e com  cicatrizes , lágrimas provocadas pela fumaça, o corpo adquire uma cor  e a fuligem torna-se sua extensão. Os dias contam histórias iguais, repetição nas atividades, condições sub humanas.

A palavra trabalho assume para a família carvoeira a etmologia negativa como sendo tripalium, instrumento de três paus, tortura, dor que “no século XIII significava precisamente tormento, sofrimento, ganhando depois uma  nova acepção , muito próxima: dispositivo para imobilizar  os grandes animais. Então seria uma espécie de canga”(VIEGAS,1989).

As crianças carvoeiras são uma gente invisível, sem vez e sem voz. Pequenos brasileiros, pobres, dóceis, migrantes e que não sabem onde vão estar daqui a dois meses. Gente pequena, explorada pelo sistema econômico, pelos patrões e até pela ignorância dos pais. Gente sem presente, sem rumo na vida e hoje sem futuro.

A migração constante da família carvoeira impossibilita suas crianças de frequentar regularmente a escola, oque as joga dentro do redemoinho da vida:  ao “ajudar” os pais elas aprendem o ofício e abraçam a única alternativa que a vida lhes reserva : ser carvoeiro. Aos vinte e poucos anos já são “jovens idosos”. Aos quarenta e poucos anos já estão “acabados”, desgastados, não têm mais “serventia” no mundo capitalista de hoje. Assim, fica difícil imaginar alguma coisa mais triste que a total falta de perspectiva de futuro de uma criança carvoeira

Esta brava gente carvoeira convive diariamente com a degradação humana, com a carência de tudo e quando consegue entrar na Escola tem que caminhar diariamente de duas a três horas para assistir às aulas. Apesar de tudo, da vida fumaçada pela incerteza, do cotidiano cinzento, do afeto minguante, da existência insignificante, as crianças e adolescentes nos surpreendem, nos emocionam e nos dão uma grande lição de vida: elas teimam em ter esperança de que um dia a vida vai melhorar.
Diante de tal cenário, indagamos :

Por quê o cotidiano duro e amargo destes pequenos brasileiros trabalhadores e sua total  falta de asperspectiva de futuro não mexem com nossa indignação e  perplexidade?

Será que o lucro exorbitante de alguns poucos grupos econômicos (estes fazendo o mínimo de esforço) a ASjustifica a miséria absoluta, os corpos destroçados e a ausência de futuro das crianças carvoeiras ?

* Cláudio Bueno Guerra é consultor ambiental , com curso de pós-graduação no UNESCO-IHE,Delft, na Holanda.
** Amauri Carlos Ferreira é professor de Filosofia da PUC-Minas e doutor pela PUC-SP.

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